
Pois é.
Ninguém passa pelo primeiro grau ileso, e esse sujeitinho aí... sei lá pq, mas ele me odiava, ele foi meu Buddy Revell. Eu tentava tratar ele bem, até pq ele metia medo mesmo, o cara era baixinho, menor que eu, apesar de mais velho, o cabelo era quase marrom e todo dessarumado, com a maior aparência de sujo, o rosto parecia que tinha vida própria, sei lá, independente do corpo até, ficava pulsando, como se tivesse o coração de um boi batendo embaixo daquelas bochechas, era bizarro... E os olhos, putz, ele era uma espécie de vesgo, mas em fez de serem virados pro lado, eram virados pra baixo, eu nunca tinha visto algo do tipo... e fora que era meio gordo também, mas um gordo diferente, que mesmo sem tocar, a impressão que tu tinha é que a gordura do corpo dele parecia feita de um material estranho, algo indestrutível, na época eu achava semelhante ao adamantium... Enfim, o cara me odiava por algum motivo muito obscuro, tentava me ridicularizar sempre que surgia uma oportunidade, e por várias vezes me chamou pro duelo, e mesmo eu ficando todo cagado, era meio engraçado o jeito que ele falava "tu e eu, agora, lá fora... eu to indo, e te esperando, eu vou te cagaaaaaaar a pau! CAGAAAAAAR A PAU!". hauhauah, enfim. É mais engraçado hoje do que na época, apesar que na época era um pouco engraçado também. Ok, ele nunca conseguiu me bater, eu sempre conseguia escapar de alguma forma, até admitindo a derrota, e quando isso acontecia ele começava a bater com o dedo no meu peito e gritar "tu-é-um-CA-GÃ-ÃO... CA-GÃ-ÃO!" e ele falava desse jeito "ca-gã-ão", duas vezes e pausado. Uma vez até pensei que não escaparia, mas daí comprei um kinder ovo pra ele em troca de não me arrebentar, e ele aceitou. Na verdade ele era um valentão frustrado, já que ninguém respeitava o cara, o apelido dele era cocô, pra ter uma idéia, isso pela aparência, que de um jeito bizarro lembrava isso mesmo. E sempre que ele vinha com esse papo de querer bater em alguém todos saíam de perto, com uma cara de vergonha alheia, daquela que as sobrancelhas diziam mais que a boca ou os olhos, e por ela tu praticamente conseguia ler a palavra "loser". E também ninguém entendia pq o cara tinha essa implicância comigo.
Bom, ontem eu reencontrei o temido Alberto. Depois de 10 anos, por aí, nas Americanas do centro. Estava eu olhando uns DVD's de filmes, quando noto aquele cara organizando uma certa prateleira. A aparência era praticamente a mesma, ainda lembrava um cocô, mas não me botava mais medo. Então ele repara que eu to olhando, e antes que ele diga qualquer coisa, eu me antecipo "eu já estudei contigo, né?", então ele fica nitidamente confuso, começa a puxar algo da memória, então eu resolvo dar uma pista pra ele "é, no souza Lobo, na sexta série, ou sétima, ou quinta, por aí..." e então ele começa a olhar melhor pra mim, e, finalmente lembra "ahh, Thiago, né?" e eu confirmo, então nós nos cumprimentamos entusiasmadamente. Foi bacana, foi bacana... Eu não lembrava o nome dele, e dei como desculpa que nos chamavamos muito por apelido. Notei que quando terminei de falar isso ele ficou um pouco sem graça, como se há tempos tivesse tentando esquecer, mas claro que eu fui um pouco mais fundo "hmmm, qual era teu apelido mesmo? ahn... não to conseguindo lembrar" e ele "ah, deixa pra lá, nem eu lembro mais também" daí eu "ah, sim, lembrei, cocô. haha" e ele "ah é. hehe" meio que olhando pro chão. Depois disso ele perguntou se eu queria ajuda em elguma coisa, e eu disse que não, só tava dando uma olhada, então ele pediu com licença e foi terminar de arrumar a prateleira.
Ó que beleza, o cocô não me assusta mais


